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Seu sangue é ouro

carlossolarissa
18 de nov. de 2019
5 min de leitura

Da ficção à realidade, o estigma em cima da menstruação é experienciado por muitas mulheres ao longo da vida

Todos os meses, pelo menos ao longo de 30 anos de vida, as mulheres esperam pelo o famoso ‘’chico’’ descer. Crédito: Larissa Carlosso

Aos 16 anos, Carrietta White teve uma surpresa no banheiro da escola: sangue começou a escorrer pelas suas pernas e, com medo que algo de grave poderia estar acontecendo, soltou um grito. "Ela se refugiou no lado de um dos quatro grandes boxes de chuveiro e lentamente desmoronou, caindo sentada.” Esse trecho é retirado do livro 'Carrie, a estranha', de Stephen King, que se tornou uma das franquias mais famosas do cinema, em 1976. A garota, que teve uma educação severa por conta da mãe extremamente religiosa, foi isolada de várias circunstâncias, como o acesso à informação referente saúde feminina. Essa situação tornou o seu primeiro fluxo menstrual um trauma, que, ao longo da dramaturgia, é somado com uma série de acontecimentos que rodeiam à vida da menina.


Como já dizia o famoso ditado “a vida imita a arte”, e as dúvidas ocasionadas pelo desconhecimento e apreensões sobre a menstruação são experiências sentidas por muitas meninas entre os 8 e 16 anos de idade – período considerado normal para o primeiro ciclo. Uma pesquisa realizada pela organização Plan Internacional, no Reino Unido, apontou que uma a cada 10 mulheres não se sentem confortáveis para conversar sobre o tema com as próprias amigas. Essa falta de diálogo faz o assunto permanecer como tabu e cria condições para que certos mitos sejam mantidos.


Ao longo da história, por exemplo, já foi dito que o sangue menstrual era venenoso, podendo estragar a agricultura e deixar os animais insanos. O médico ginecologista Elsimar Coutinho é considerado um dos pesquisadores polêmicos sobre o tema. Em seu livro ‘Menstruação, a sangria inútil’, de 1996, o autor relaciona o ciclo menstrual apenas com o insucesso reprodutivo da mulher. “A menstruação só ocorre quando não há fecundação ou quando um ovo fecundado não vinga. A repetição do fenômeno ocorrerá sempre que as mulheres forem inférteis ou se abstiverem voluntária ou involuntariamente de manter contato sexual com os homens”.


Com o tempo, a ciência e outros especialistas foram criando opiniões e estudos diferentes sobre o corpo da mulher e seus ciclos, o que ajudou a desmentir algumas crenças e trouxe mais embasamento para afirmar que menstruar é natural. Uma dessas especialistas é a médica ginecologista Anita Lucas de Oliveira, que afirma que a naturalidade do ciclo deve ser abordada desde a infância, com certas divergências dependendo da idade."A menstruação é efeito da anatomia do corpo e acontece com toda mulher", assegura. A média ainda reforça que reconhecer o próprio corpo como seu é muito importante quando falamos sobre saúde. “A menstruação, embora seja incômoda, é um sinal de saúde. Demonstra que os órgãos estão funcionando adequadamente”, enfatiza.


Em entrevista a nossa equipe, a ginecologista Renata Burmann e a jornalista Barbara Viacava compartilharam opiniões, experiências e seus estudos referente ao ciclo menstrual. Confere só o que rolou durante esse bate-papo.


Mas o que é a menstruação?


Regra, chico, fluxo, catamênio, paquete, mênstruo, lua, menorreia, menarquia, período menstrual e menstruação são sinônimos, e significam a perda de sangue pelo canal vaginal das mulheres. Geralmente acontece todo mês. Não existe uma "maneira correta" de menstruar, sendo que o ciclo e suas reações atingem cada mulher de jeitos diferentes. Para algo ser considerado anormal, é preciso gerar desconforto social e físico.

“A menstruação tem uma variação de normalidade muito grande. Há mulheres que passam um mês sem menstruar e chega a ser um ciclo normal. É importante se conhecer, saber seu ciclo, sempre buscar um ginecologista e entender o que é normal para você”, afirma a ginecologista, obstetra e mastologista Renata Burmann.


O que acontece durante a menstruação?


O sistema reprodutor feminino é composto de dois ovários, duas tubas uterinas, um útero, a vagina e a vulva. A partir da puberdade, o endométrio (parte interna do útero) fica mais grosso, esponjoso e vascularizado (com muito sangue), pois está "programado" para receber um embrião. "Com a ausência da fecundação há queda de hormônios e o tecido interno do útero se rompe e é perdido em forma de sangramento", explica Renata.


Odor, textura e cor: como é a menstruação?


Marrom, vermelho escuro ou vermelho muito intenso são as variações de cores que o sangue menstrual pode apresentar. A textura pode ser bem líquida ou em coágulos. “O odor é característico de sangue. Se tiver cheiro de algo apodrecido ou estragado pode ser algum problema”, comenta Renata.


Para a jornalista e fotógrafa Bárbara Viacava, adepta aos métodos naturais em relação ao seu corpo, o coletor menstrual é uma opção mais higiênica que o próprio absorvente. Segundo ela, o que intimida muitas mulheres de usá-lo é o receio do contato com a vagina e com o sangue. ‘’Mas alô, meninas! O corpo é seu, o sangue é seu. Nos dias de hoje não há porque não ter domínio sobre a sua própria natureza’’, brinca. Barbara, que atua como influenciadora em suas redes sociais, é autora do projeto Parte de Tudo, que busca relatar através de imagens o corpo da mulher como ele é.


Para quem ainda não foi apresentada ao coletor menstrual, ele é um “copinho” anatômico de silicone que deve ser colocado dentro do canal vaginal que, como o nome diz, armazena o sangue ao invés de absorvê-lo, como no método tradicional. Quando ele fica cheio, basta retirar, lavar o recipiente e colocá-lo novamente. Algumas marcas e influenciadoras digitais já produzem conteúdo tentando minuciar essas informações para o público feminino.


A importância da rede familiar


Apesar de ser um assunto que envolve a formação da mulher, é importante que essa conversa aconteça entre pais, mães e filhos. "As meninas devem ser orientadas em relação que a menstruação e mudanças no corpo fazem parte da transição para vida adulta. Essa conversa entre a família deve acontecer ainda na infância”, reforça Renata. Para a médica, essa temática também deve ser abordada entre os meninos, com o objetivo de familiarizá-los com situações que envolvem o corpo da mulher. "Ensinar os meninos a serem bem informados e compreensivos sobre temas como esse certamente construirá um futuro mais harmonioso entre homens e mulheres. Pais e mães devem também mostrar-se abertos e disponíveis para esclarecer e conversar com naturalidade sobre as inúmeras dúvidas que irão surgir. Sugerir a conversa de forma delicada e informal pode ser o primeiro passo para uma bela troca de informações", completa.


Caso os pais não saibam como abordar o assunto, a especialista afirma que materiais encontrados na internet, livros e até produções audiovisuais, como documentários, filmes e vídeos, podem auxiliar nessa conexão. Além disso, Renata também recomendada que não seja reforçado o tabu. Segundo ela, abordar o assunto com clichês como "naqueles dias" só reafirma que o assunto deve ser silenciado. "É preciso ter mais empatia e naturalidade para falar sobre o assunto”, pondera.

Crédito: Barbara Viacava / Reprodução @partedetudo


Podcast ‘Tá na TPM?’


A primeira temporada do podcast ‘Tá Na TPM?’, idealizado pelas podcasters Betina Ludwig, Kállita Tretto, Larissa Carlosso e Letícia Breda, está abordando temas que afetam o universo feminino como um todo. Nos episódios, as jornalistas trazem convidadas e especialistas para debater sobre menstruação, maternidade, segurança e prevenção.



 
 
 

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