O mito da super mulher

A maternidade na juventude fez Emily e Sara perceberem a importância da rede familiar

Relatório da Factors afirma que uma a cada quatro mulheres sofrem de depressão pós-parto no Brasil. Crédito: Letícia Breda
A subjetividade de conseguir dar conta de todas as tarefas e não poder procrastinar foi a primeira diferença que Emily Santana sentiu após seu parto. Aos 23 anos, Emily é mãe do Igor, de cinco anos, acadêmica de Design, profissional ativa no mercado de trabalho e esposa do Paulo Cezar Pellegrini. Segundo ela, conseguir conciliar tudo sem a ajuda da rede familiar é praticamente impossível. “Teve uma época que eu estava muito chateada, porque quando eu era boa mãe, não estava sendo boa esposa, cuidando da casa, indo bem no trabalho ou na faculdade”, conta. Uma das maiores preocupações da acadêmica, que engravidou aos 17 anos, era ver os colegas de aula crescendo profissionalmente enquanto ela ficava estagnada no mesmo lugar. “Por estar sempre me comparando ao crescimento deles, eu me cobrei muito e chegou uma hora que já não aguentava mais”, enfatiza.
De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2005, o Brasil tinha mais de 10 milhões de lares compostos por mães solos – expressão utilizada para definir as mulheres sem cônjuge. Já em 2015, esse número aumentou para 11,6 milhões. Outro levantamento feito pelo Conselho Nacional de Justiça aponta que 5,5 milhões de brasileiros não tem o nome do pai no registro de nascimento. A filha de Sara Tuane Silva, de 22 anos, faz parte desta estatística. A pequena Sophia Emanuelly Silva, de um ano, não possui o registro do pai. “É muito complicado ter que lidar com essa situação sozinha, comecei a entender a importância de uma rede familiar após uma conversa que tive com a pediatra da minha filha”, comenta.
Segundo a psicóloga Roberta Geremia, a gravidez não planejada e durante a adolescência são fatores de risco para a depressão pós-parto. Um relatório feito através de um estudo da Fiocruz aponta que o Brasil possui um índice 26,3% maior do que o registrado também nos Estados Unidos, Austrália e países da Europa. A Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta que a média desses casos em países de baixa renda é de 19,8%. “A depressão pós-parto é um risco eminente no nosso país, por isso a rede familiar é excepcionalmente essencial no puerpério”, afirma. A psicóloga ainda explica que o puerpério não pode ser definido apenas nos 40 dias iniciais da maternidade, mas sim em dois anos. “Até esse bebê evoluir de uma independência absoluta para uma dependência relativa e adquirir um pouco mais de autonomia leva tempo”, pondera.

Tanto Emily quanto Sara precisaram enfrentar a depressão pós-parto. Emily conta que não criou um vínculo forte enquanto estava grávida, mas acreditou que isso mudaria após o nascimento. “Achei que quando eu olhasse para o Igor tudo iria mudar, eu iria florescer e me sentir diferente, mas não aconteceu. Quando eu cheguei em casa e olhei para ele no bercinho, pensei: não foi isso que eu planejei”, disse. Para Sara a situação também não foi diferente, ela lembra que se isolou durante a gravidez e também nos primeiros meses do nascimento de Sophia. “Minha única vontade era ficar sozinha, eu sentia uma mistura de medo e vergonha. Não conseguia entender como tudo fugiu do controle”, detalha.
A psicóloga Brenda Gomes explica que a depressão pós-parto precisa ser tratada, pois em casos mais graves podem tornar-se psicose puerperal – situação que provoca um afastamento da mulher com a realidade. Para Brenda, a família precisa estar atenta aos sinais da depressão, qualquer desconfiança deve ser levada ao pediatra, psicólogo ou qualquer médico mais próximo que a família tenha contado. “Antes de dar colo, a mãe precisa receber colo. É necessário que essa mulher tenha um acompanhamento especial, pois a vida dela também mudou da noite para o dia”, reforça. Roberta ainda enfatiza que as mulheres não podem puxar para si toda a responsabilidade da maternidade. Por mais sociocultural que a situação seja, é preciso de descanso e ajuda. “O fatídico dar conta é o início da arapuca. Onde está escrito que nós precisamos dar conta de alguma coisa?”, disse.
Podcast ‘Tá na TPM?’
A primeira temporada do podcast ‘Tá Na TPM?’, idealizado pelas podcasters Betina Ludwig, Kállita Tretto, Larissa Carlosso e Letícia Breda, está abordando temas que afetam o universo feminino como um todo. Nos episódios, as jornalistas trazem convidadas e especialistas para debater sobre menstruação, maternidade, segurança e prevenção.


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